Nossa História

Dia de sol em Luanda, capital de Angola, na África. Como acontece toda a semana, um grupo de crianças nos ambiente salesiano, por encontrar um pátio que acolhe ex: bairro da Lixeira(sambizanga) correm para o Oratório, até os jovens brincam e participam da missa, escutando uma palavra amiga e com os ouvidos atentos para resolver os seus problemas e alegrias. Aquela é uma entre tantas obras salesianas no país (64 dos Salesianos de Dom Bosco e 5 das Filhas de Maria Auxiliadora). Uma entre tantas obras que floresceram das sementes de esperança e solidariedade plantadas há 30 anos por missionários.

Primeiros anos, muitos desafios

A presença salesiana em Angola completou 30 anos em 1º de Setembro de 2011. Mas, para entender essa história, é preciso voltar alguns anos mais: No final da década de 70, o Papa João Paulo II pediu ao Reitor-Mor dos Salesianos, padre Egídio Viganó, que a Congregação tivesse uma dedicação especial à juventude africana. Nasceu assim, em 1980, o Projecto África. Em todo o mundo, voluntários inscreveram-se para participar dessa grande acção missionária. Muitos dos primeiros salesianos a chegarem à Angola vieram do Brasil.

Entretanto, na época Angola vivia uma guerra civil e o regime político de então dificultava a entrada de estrangeiros, ainda mais em se tratando de padres e religiosos. Os vistos de entrada demoraram mais de um ano, e foram sendo concedidos um a um.

O primeiro a chegar a Angola foi o padre Alvino Beber, da Inspetoria de Porto Alegre. Logo, seguiram-se outros cinco pioneiros. Nas regiões do Dondo, Luanda e Luena, os salesianos colocaram-se ao serviço da comunidade. Inicialmente, em paróquias. Com o tempo, surgiram os oratórios e as primeiras obras educacionais. Dois anos depois, em 1983, chegaram ao país as Filhas de Maria Auxiliadora.

Os primeiros salesianos e salesianas traziam pouco na bagagem: a solidariedade com o povo que sofria os horrores da guerra e da fome e o compromisso com o carisma salesiano de dedicação aos jovens. Receberam em troca uma acolhida calorosa. A alegria, a esperança e a religiosidade do povo, mesmo diante das maiores dificuldades, são destacadas por todos os que foram ou são missionários no país.

Irmã Theotônia, há 23 anos em Angola, descreve o país como uma terra de sorrisos e de vida. “Quando se pensa em Angola imagina-se uma terra rica em petróleo e diamante. Mas a riqueza verdadeira desta terra está na sua gente, em contemplar o rosto de um angolano e sentir a alegria, o sorriso aberto, a acolhida festiva de um coração que já viveu de perto a dor da guerra”.

Um país em guerra

Antiga colônia de Portugal, Angola conquistou sua independência em 1975. Mergulhou em seguida em uma guerra civil que durou quase trinta anos. As tratativas para a paz começaram em 1994, mas o processo só foi concluído em 2002. Durante o conflito armado, milhares de pessoas morreram e outras tantas, inclusive crianças, ficaram mutiladas. A fome e a miséria tomaram o país.

Padre Oswaldo Tironi, que passou 17 anos em Angola, conta uma parábola que retrata bem como os angolanos tiveram força para superar tanto sofrimento: “Entre o povo diz-se que Angola é assim como dois elefantes em luta, mas quem sofre é o capim. Os dois elefantes são o governo e os guerrilheiros, e o capim é o povo. Os dois elefantes um dia vão morrer, mas o capim não morre. Basta um pouco de chuva e de tempo e o capim renasce”.

Padre Tironi lembra com saudades os anos que passou na África. “Nos esportes, na catequese, nas festas com batuque e danças tradicionais, nas mágicas do irmão Lopes para as crianças do oratório, estavam sempre presentes a alegria e o carisma de Dom Bosco”.

Irmão Virgínio Francisco Lopes também fez parte do grupo de primeiros missionários em Angola, e permaneceu no país até 2005. Ele conta que, apesar das dificuldades geradas pela guerra e pela falta de recursos, cada missionário assumiu suas tarefas com muita humildade e o carisma de Dom Bosco foi, assim, entrando suavemente em meio à cultura angolana. “Aquele que vai para a missão deve, primeiro, ficar muito tempo em silêncio, para receber o que o pessoal da terra tem a oferecer. Depois, lentamente, ele vai falando, pregando, trabalhando e partilhando. Penso também que se a gente não se encanta, não se apaixona, a missão pode até acontecer, mas não prolifera”.

Irmão Lopes viveu de perto um dos momentos mais dramáticos e decisivos da presença salesiana em Angola: a morte do padre Marco Aurélio Fonseca, em 1991. Em um período de acirramento da guerra civil, padre Marco e os irmãos salesianos Virgínio Lopes e Gaspar tiveram a coragem de ficar em uma região particularmente perigosa para não abandonar as vítimas do conflito. Como afirma padre Guilherme Basañes,na altura inspetor da Visitadoria Mama Muxima, de Angola, “nas horas em que o povo ficava sozinho e que todas as instituições, as ONGs, todo o mundo escapava do país, a grande mensagem dos salesianos foi a de ficarmos. Isso foi para nós determinante. E foi isso, acredito, que deu a autoridade moral, educativa e pastoral que temos hoje”.

Bons frutos

A Inspetoria Salesiana de São Paulo assumiu, desde o início, a coordenação do projecto missionário em Angola, que constituiu uma delegação desta inspetoria até Dezembro de 1999, tornando-se a Visitadoria Mama Muxima a partir do ano 2000. Padre Luiz Gonzaga Píccoli acompanhou esse processo como inspetor em São Paulo (1988 a 1993) e em Angola (2000 a 2005). Ele destaca que, se a acção salesiana foi fundamental durante a guerra, nos tempos de paz ela não é menos necessária. Angola é um dos países mais pobres da África e a mortalidade infantil é a segunda maior do mundo, segundo a Unicef.

“Em 15 anos, Luanda passou de 600 mil habitantes para quase 6 milhões. Isso permite entender em que duras condições esse povo teve que sobreviver: falta de escolas, postos médicos, saneamento básico, água potável, energia elétrica”, diz padre Piccolli, para quem, nesse contexto, a missão salesiana tornou-se evidente na promoção das actividades próprias das origens da congregação: oratórios, centros de formação profissional, catequese, alfabetização de adultos e escolas.

Em todas estas frentes actuam também as FMA, através da Visitadoria Rainha da Paz: “O nome foi escolhido porque era sob este título que as irmãs e o povo invocavam a Mãe de Deus, nos tempos de guerra”, diz irmã Anna Bello, missionária FMA em Angola. Além dessas obras, ela ressalta a importância dos projectos de micro-crédito e incentivo à geração de renda, voltados principalmente aos jovens e às mulheres.

Hoje, há 58 Salesianos actuantes em Angola, entre os quais cinco sacerdotes e seis irmãos coadjutores nascidos no país. As vocações locais também crescem entre as FMA: das 25 religiosas, nove são angolanas. O trabalho salesiano continua também animando missionários de todo o mundo, e não se restringe aos religiosos, mas também aos leigos voluntários e missionários.

Ana Cosenza

Colaboraram: Amanda Machado, MG; Gisele Mendes, SC; Ir. Ivone Braga de Rezende, SP; Laurindo Ribeiro, Angola; Luca Pacheco, MG; Ir. Maike Loes, RS; Rafael Belletti, Angola; e Pe. Rogério Calvi, MG