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Testemunhar a missão!

Um pouco por toda a Luanda, a Universidade Católica de Angola (UCAN) desenvolve vários projectos de voluntariado com crianças, jovens de rua, presos – é só escolher. Mas Angola é um país muito grande e há muito para descobrir e ajudar. Por isso, todos os anos um grupo de mais de 70 voluntários arruma as malas, pega em baldes, tendas e sacos-cama, e parte à aventura durante 15 dias para lugares que vão de Dondo e N’Dalatando até Huambo ou ao distante e remoto Moxico. Este ano, eu fui um deles.

O objectivo da missão é simples: ajudar as populações locais, em particular as crianças. Fazê-lo é mais difícil. As necessidades são muitas, a quantidade de crianças ainda é maior e organizar os cursos exige o esforço dos voluntários durante muitos meses. Há quem trate do reforço escolar, quem se centre nos direitos humanos, quem se centre na formação espiritual e quem além disto tudo ainda dê uma mãozinha na logística da cozinha.

Eu sou voluntário de nacionalidade portuguesa, só cheguei em Outubro, e por isso “caí de pára-quedas” no meio de todo este processo – sem amigos, sem entender totalmente o que íamos fazer e sem sequer conhecer o meu destino (Dondo). O que me sobrava? A esperança de que tudo estivesse bem organizado e de que vinte mwangolés aceitassem um tuga no meio deles.

Chegar à missão podia ter sido um choque, mas duas semanas nas aldeias do Moxico tinham-me preparado para tudo. Ainda assim, as condições em que estávamos alojados eram precárias. Dormíamos em tendas nas salas de aula de uma escola. Tomávamos banho de copo e balde. A casa de banho era um bloco de cimento e estava sempre suja. Uma noite decidi ir lá e quando apontei a lanterna contei dez baratas numa das paredes. Os nossos “vizinhos” tinham um macaco de estimação. As crianças gostavam de ir lá chateá-lo e quando ele se irritava a sério fugiam para o nosso terraço, aos berros. Fazia um calor terrível que só se suportava com gelado de mucua. E havia galinhas, porcos e cabras por todo o lado e pessoas a ouvirem kuduro aos berros 24h por dia. Era fixe.

O meu trabalho envolvia dar aulas a crianças da 2ª classe e coordenar uma das turmas de artes e ofícios (desenho e artes plásticas). Eu costumo dizer que as pessoas que eu mais admiro são as que trabalham com crianças – e estas duas semanas só me deram mais razão. É impossível manter uma turma de quarenta miúdos entre os 7 e os 9 anos quieta. É preciso usar uma imensa quantidade de estratégias para que eles prestem um mínimo de atenção e os dois ou três primeiros dias foram complicados.

Depois apanhamos um pouco o jeito. As aulas demoravam duas horas, por isso comecei a fazer um pequeno intervalo. Comecei a organizar canções, jogos e competições que funcionavam muito bem. E quando os miúdos se portavam mal ou erravam uma pergunta, dava-lhes (sem força!) com o apagador na cabeça – no final, havia várias crianças a sair da aula com a cabeça cheia de giz. Acho que eles acabaram por gostar e no último dia alguns choraram por o Préssôr João se ir embora. Eu próprio fiquei com um aperto esquisito no peito, porque acho que acabei por criar uma relação gira com eles.

Mas missão não é missão se não tiver um lado espiritual. Por isso, contámos sempre com a presença do Pe. Martín e do Pe. Ivan, um brasileiro deslocado e com uma história de vida inspiradora, que se revezavam na missa e nas reflexões diárias. Levámos também a mensagem de Cristo à população e todas as tardes visitávamos as casas de várias famílias para falar sobre nós, sobre elas, sobre Deus – enfim, sobre a vida.

Nem sempre foi fácil. Acabei a missão de rastos e com as costas destruídas. Passei um dia de cama doente. E fui ameaçado por um grupo de vizinhos. Mas prefiro lembrar-me dos amigos que fiz, de como aprofundei a minha relação com Deus e de como me apaixonei pelo Dondo e, se possível, ainda mais pelo voluntariado.

Quando a missão chegou ao fim, tinha um peso no coração e a sensação de que ainda faltava fazer muita coisa. Por isso, no último dia, pouco antes de me ir embora, fui até à capela da nossa escola. Ajoelhei-me e, no meu estilo desajeitado de rezar, fiz uma oração que começava com: “Por favor, deixa-me voltar”.

Por: João Ferrão

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