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Uma lufada de ar fresco (II)

Na sua curta, mas clara e incisiva homilia, o Papa questionou-nos sobre a sensibilidade humana, sobre o sentido do outro, e condenou a nossa inércia no que diz respeito às preocupações dos mais necessitados: “ «Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim», diz o Senhor Deus. Esta não é uma pergunta posta a outrem; é uma pergunta posta a mim, a ti, a cada um de nós. Estes nossos irmãos e irmãs procuravam sair de situações difíceis, para encontrarem um pouco de serenidade e de paz; procuravam um lugar melhor para si e suas famílias, mas encontraram a morte”, disse o Papa. Exortou ainda a que não se caia no que ele designou como globalização da indiferença, ou seja, a generalização da passividade frente aos sofrimentos dos outros, com a escusa de que não somos responsáveis por suas desgraças, portanto, não podendo prestar contas do sangue destes desgraçados, como Caim: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!”. Aí, em Lampedusa, resto do mediterrâneo e símbolo do capitalismo político-económico desumano e fracassado, onde as promessas do governo de Berlusconi ficaram simplesmente nisto, em promessas, nesta mesma Lampedusa dos últimos, não houve nem salvas de tiros, nem tapetes vermelhos, nem holofotes; apenas Francisco e os seus amigos, os habitantes das periferias existenciais. Aí, em Lampedusa, foi também a primeira viagem oficial do Papa Francisco.

A IOR

3. Não podia de modo algum terminar esta reflexão sem fazer uma breve alusão aos últimos e significativos gestos do Papa dos pobres, designadamente o intenso trabalho para a renovação do IOR (Instituto para as obras de religião), comummente conhecido como o banco do Vaticano, a publicação da sua primeira encíclica, bem como a canonização dos papas João Paulo II e João XXIII.

Quanto ao IOR, o assunto é complicado, mas Bergoglio o enfrenta com a coragem de um pai que não suporta escândalos em sua casa. O Vaticano, se assim se pode dizer, é o quartel-general da igreja católica, portanto o lugar onde escândalos financeiros jamais poderiam ter oportunidades. As últimas notícias não têm sido muito boas. Faz alguns dias que Mons. Nunzio Scarano, um dos prelados responsáveis foi acusado e preso por uma tentativa de transferir vinte milhões de euros da suíça ao Vaticano, de maneira pouco ortodoxa, o que levou, alguns dias depois, à demissão forçada do director Paolo Cipriani e seu vice MassimoTulli. “O IOR é necessário, mas até um certo ponto” e ainda, “ S.Pedro não tinha um banco”, dizia Bergoglio. Palavras tão simples, mas carregadas de um enorme desejo de transparência possível, de modo a resgatar-se a credibilidade da Igreja no que diz respeito ao mundo das finanças. Nesta batalha épica, o papa segue na vanguarda, e os resultados têm sido animadores.

Na pretérita sexta (5), o Vaticano confirmou a canonização dos papas João Paulo II e João XXIII. Bergoglio decidiu canonizar o papa polaco após o fecho do processo, que se deu com a aprovação do milagre a si atribuído: a cura de uma mulher na Costa Rica. Sua canonização é um presente para a Igreja, para o mundo, para todos os homens e mulheres que viram em João Paulo II um pastor com cheiro de ovelha, na linguagem do papa Francisco. João Paulo II, o papa que viera do leste europeu, da polónia nazista e comunistamente maltratada, que lutara contra a ditadura do comunismo, que simpatizou com os jovens de todo o mundo, chegando a inaugurar as jornadas mundiais da juventude; o Papa do ecumenismo, do sorriso e das viagens longínquas. Por vontade de Bergoglio, será também canonizado João XXIII, mesmo sem a existência formal do milagre. "Todos conhecemos as virtudes e a personalidade do Papa Roncalli (João XXIII) e não é necessário explicar as razões pelas quais alcança a glória dos altares", afirmou o porta-voz do vaticano, pe. Frederico Lombardi.

Eleito papa em Outubro de 1958, passará à posteridade como “o papa bom”, o papa da coragem inédita ao convocar a maior revolução eclesiológica do século XX, o concílio ecuménico Vaticano II, concebido como renovação e adequação da igreja em todas as esferas, sobretudo na sua relação com o mundo moderno, patentemente referida pela constituição pastoral “Gaudium etspes”. A meu ver, a decisão de Francisco em canonizar João XXIII tem uma dupla finalidade; a primeira e a mais importante é justamente o facto de que ele merece, pois foi um cristão exemplar e digno de ser dado como modelo de fé e santidade; a segunda, também igualmente importante, consiste numa provocação, numa chamada de atenção para a Igreja querida, sonhada e desejada pelo papa Roncalli à luz do concílio vaticano II: uma igreja simples, dos pobres, mas aberta, dialogante, humilde e inclusiva, enfim, a igreja do aggiornamento, na comum expressão do Papa de Bergamo.

Não é novidade que João XXIII têm muito a dizer hoje, seja para a igreja como para o mundo, e sua canonização pode ser o meio mais eficaz para tal finalidade, por isso penso que a decisão de Francisco não se resume a mera coincidência ou a um favor eclesiológico papal, ou ainda a uma obrigação eclesiológica, mas fruto do Espírito Santo.

No mesmo dia em que aprovara o decreto para a canonização dos dois papas, foi publicada a primeira encíclica do Papa Francisco ou, como gosto dizer, o último trabalho teológico do papa Bento e primeira encíclica do papa Francisco. Não me vou deter aqui sobre a autoria, porque isso, por si só, não constitui qualquer problema, a não ser que se queira fazer conjecturas.

É do conhecimento público que o texto começou a ser trabalhado por Ratzinger, e Bergoglio o concluiu. Ela é maioritariamente de Bento, mas Bergoglio a assumiu e a fez sua, fazendo alguns e necessários acréscimos, como ele mesmo testemunha no ponto sete da introdução da encíclica: “ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer contribuição”.

A carta é essencialmente teológica e apresenta o estilo inconfundível de Bento XVI, mas algo chama a atenção, o primeiro capítulo: acreditamos no amor. Como pode uma carta sobre a fé, começar logo com o primeiro capítulo tendo o amor, e não fé como protagonista? Aí veio-me à cabeça a pessoa de Francisco e sua incessante insistência na caridade, na virtude que leva à sensibilidade para com os pobres, os predilectos do seu coração, o projecto do seu pontificado: “Ah! Como gostaria uma igreja pobre para os pobres!”. Mas é melhor não cair em especulações, pois não há necessariamente uma hierarquia entre as duas virtudes teologias. Acreditamos no amor porque a nossa crença resume-se em amar, pois Deus é amor. Nesse caso, fé e amor podem ser a mesma variante duma única e mesma equação e, ao assumir o trabalho de RATZINGER, o Papa Francisco percebeu, evidentemente, isto.

Do primeiro capítulo pode-se fazer uma leitura pedagógica muito proveitosa. Acreditar é amar, isso nos ensina a perceber que o cristão não o é simplesmente por ir à missa todos os dias, por ser baptizado, por participar assiduamente nas celebrações litúrgicas, mas o é também e sobretudo quando consegue perceber e entrever o mesmo Deus em quem acredita e adora no altar, também na pessoa do próximo, seja ele o próximo mais distante, como o mais próximo, sem exigências a fazer, sem moralismos, apenas com caridade. Afinal de contas caridade é isso, a força propulsora que leva às necessidades do outro, como fazia referência o papa Bento na CARITAS IN VERITATE. Se o amor se fecha, sufoca e morre, perde a essência, deixa de ser amor. E como crer em algo morto, já que acreditamos em Deus, e Ele é amor?

Nestes quatro meses de pontificado pode-se testemunhar que o papa Francisco tem sido uma grande bênção para a igreja (uma verdadeira lufada de ar no interior da Igreja), para os crentes de outras religiões (pensa-se nos refugiados de Lampedusa, maioritariamente muçulmanos) e para o mundo. Acompanhemos seu trabalho, rezemos por e com ele, mas sobretudo sejamos dóceis aos seus ensinamentos e procuremos ser, como ele, testemunhas do amor humanizante de Jesus.

Internauta: Adriano Sumbavela

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