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UMA LUFADA DE AR FRESCO NO INTERIOR DA IGREJA

Há quatro meses o mundo católico era abalado pela renúncia do Papa Bento XVI, renúncia esta tomada por muitos como o início duma terrível e iminente decadência no seio da própria Igreja. “É inconcebível”, diziam uns; “blasfémia e dessacralização do papado” murmuravam outros; “ e agora, o que será da Igreja?”, Interrogavam-se não poucos; e outros ainda “ nunca se viu algo do género em mais de 700 anos”, como se tradição fosse sinónimo inquestionável e inquebrantável de VERDADE. Lembro-me ainda do desabafo do cardeal primaz da Polónia, Estanislaw Dziwiz, secretário por muitos anos do Papa João Paulo II: “Você não pode simplesmente descer da cruz”, e lembro-me também de dois teólogos extremamente conservadores que não pouparam nem palavras nem cérebro a fim de repudiar a renúncia do romano pontífice: “ é um grande erro, uma traição histórica; o Papa deveria revogar sua decisão e voltar imediatamente atrás”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Semanas depois, os cardeais em conclave elegeram um candidato que não fazia parte da lista mediática dos possíveis elegíveis. O mundo o recebeu ao mesmo tempo com expectativa e receio. Expectativa pela ansiedade em demasia, e receio, naturalmente, pelo desconhecido: “quem será este homem? Será digno do ministério a ele encarregue? Francisco? de onde tirara o nome, e qual a justificativa da escolha? Entre muitas dúvidas e interrogações, o papa eleito foi tomando o timão da barca de Pedro, e aos poucos se foi fazendo não apenas um pastor, um sumo pontífice, mas também um de nós.

Após quatro meses

Passados quatro meses da sua subida ao sólio de Pedro, o que se pode dizer do Papa dos confins do mundo? Na minha humilde e informal opinião, muita, como também quase nada, pois é Papa faz apenas cento e vinte poucos dias. Embora seja mais conforme à segunda opinião, não resisti ao desejo de dizer o que penso, e di-lo-ei em alguns e pequenos pontos:

1. A teologia da pobreza do Papa Francisco: No momento em que se apresentava ao mundo, aquando da sua eleição no pretérito conclave, Bergoglio disse umas palavras que, muito mais que comediantes, pareciam o reflexo de um mundo dividido, entre o norte e o sul, entre os de cá e os de lá, entre os sobreviventes do sistema (capitalismo?) e os fadados à extinção. O ex-arcebispo de Buenos Aires acabava de dizer que os cardeais haviam ido até ao fim do mundo para encontrar um sucessor para a cátedra de Pedro, e aí estava ele, um latino-americano, segundo a descrição geográfica, e um habitante do sul, herdeiro da pobreza, segundo o sistema. Um papa dos confins do mundo, do segundo ou do terceiro mundo, se me permitem, portanto um Papa pobre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E o que se pode esperar em concreto de uma pessoa pobre? Sensibilidade e amor, pois ela sabe melhor que muitos o que é padecer, depender, mendigar. Não foi por menos que o cardeal Claudio Hummes lhe sussurrara aos ouvidos antes mesmo da aclamação final, em forma de encorajamento, por parte dos cardeais eleitores: “Jorge, não te esqueças dos pobres”. Providencia ou coincidência, eis que surge Bergoglio na sacada dos apartamentos pontifícios para o primeiro contacto com o seu novo rebanho, e eis a novidade: “ O papa chama-se Francisco”, um nome, um símbolo, um programa, uma toda vida dedicada aos últimos, aos pobres, aos marginalizados, que não começa agora como pontífice, mas que já começara há muito, na Argentina. Nos dias seguintes, em sua boca sairão muitas e práticas palavras, mas poucas hão-de chamar tanta atenção e revestir-se de forças, como as dedicadas à real e irmã pobreza, tão querida e amada do santo de Assis. “Ah! como gostaria uma Igreja pobre e para os pobres”. Aqui algo chama atenção: o papa não se refere apenas a uma Igreja pobre, mas também para os pobres. Isto quer dizer concretamente missão, pois pode-se ser pobre, mas igualmente auto-referencial, orgulhoso. Portanto, uma pobreza para; como instrumento de partida para levar o evangelho a todos os que necessitam de Jesus, sem cair no risco do proselitismo.

Uma coisa é dizer uma palavra uma vez, outra é repeti-la, até ao ponto de faze-la música. Por isso, nestes dias, em minhas meditações e indagações não cesso de me questionar sobre o quererá dizer o papa ao se pronunciar constantemente sobre uma igreja pobre e para os pobres. Não será apenas um spot publicitário? Uma maneira de chamar a atenção sobre si? Uma igreja pobre e para os pobres? Utopia? Delírio psicológico-espitual? Ou sensibilidade evangélica?

Sua pobreza

Antes mesmo de ouvirmos alguma palavra da boca do papa Francisco, seus gestos, gigantes e profundos, no-lo atestam; O papa Francisco não é um político, um manager, um modelo, um actor preocupado com sua imagem; ele quer ser apenas o irmão que serve. Sua vida é um testemunho vivo e visível de pobreza, não a abstracta, e sim a concreta, a pobreza desejada por Jesus quando enviava seus discípulos: “ apenas uma sandália, um cajado e um alforge”. “ É necessário encontrar Jesus, tocando na carne dos pobres”, costuma dizer o papa Francisco. Sua pobreza é real, nada pauperista, mediática-sensacionalista ou instrumento publicitário.

2. Consequência do seu desejo de uma Igreja pobre e para os pobres, aparece o seu desejo de uma igreja caminhante, missionária, arriscada, mas distanciada do auto-referencia, do auto-suficiência, portanto fechada, abafada e com o risco de adoecer. “ Quando a Igreja sai de si em busca dos necessitados, ela corre o risco de acidentar, mas é melhor uma Igreja acidentada a uma fechada, potencialmente doente” dizia o Papa. Se para João Paulo II, no jubileu de 2000, o lema era “ Duc in altum”, para o papa Francisco, a palavra de ordem é “ rumo às periferias existenciais”. Reparemos bem, “existenciais” e não imaginárias, abstractas. Lá estão os pobres, os que muitas vezes nunca se questionaram sobre Deus, que possivelmente nunca pisaram em uma igreja, mas igualmente dignos do amor de Jesus; lá estão os pobres, portanto, lá encontra-se Jesus; haverá algo melhor que encontrar-se com Ele?

Seu magistério

Em seu magistério o Papa ensina que o evangelho não é formal, e que ele vem antes e supera toda e qualquer doutrina, pois o evangelho é Jesus, e ele veio para todos, gregos e troianos, sulanos e nortenhos, ricos e pobres, mulheres e homens. Portanto, primeiro o evangelho, depois as doutrinas, como possíveis meios para o seguimento do mesmo evangelho.

Vemos, desde sua eleição, Bergoglio a esquivar-se dos muitos, variados e contínuos protocolos pontifícios: afinal de contas o Papa deve residir na hospedaria santa Marta ou nos apartamentos pontifícios? Deve usar qualquer sapato ou os tradicionais vermelhos? E o que é feito da cruz peitoral de ouro do romano pontífice? Paulo VI já havia renunciado ao uso da Tiara, será que este quer renunciar a todo o resto? E o papamóvel blindado, já não é mais útil? Afinal de contas não está em jogo a sua segurança? E porquê prega com uma linguagem e estilo não próprios de um Papa? Será que não se cansa de trabalhar? Por qual motivo renunciou às férias na residência pontifícia de verão, em Castel Gandolfo? Não sabe ele que o solidéu é parte sagrada de suas vestes, para colocá-lo na cabeça de uma menininha? E o papamóvel, como pode convidar aquele rapaz a desfrutar do veículo sagrado? Na quinta santa lavou os pés a pessoas não católicas, inclusive uma mulher. O que quer dizer com esses gestos? Será que lhe custa tanto seguir as normas canónicas? Não será um rebelde armado em herói? A lista dos questionamentos é quase infindável, e podemos a ela nos ater até amanhã, sem parar. Mas o que me apraz dizer é que, com estes gestos, Bergoglio está a chamar a atenção para o substancial, para o mais importante, para Jesus, e a ensinar que nem sempre os protocolos são necessários. Se Jesus fosse protocolar, jamais entraria na casa de Zaqueu (Lc. 19) ou tocaria em leprosos (Lc. 17), jamais simpatizaria com a samaritana à beira do poço (Jo. 4), ou mesmo conversar como amigos com a mulher adúltera (Jo.8, 3-11), injustamente condenada pela misoginia de um sistema essencialmente machista, onde Deus (puro e santo) era representado pelos varões.

Na segunda 8, sem pompa nem festa, o Papa Francisco viajara para a ilha siciliana de Lampedusa, ao sul da Itália. Lampedusa é conhecida como a porta dos imigrantes ilegais, em busca de esperança, melhores condições, para a Europa. Uma vez mais, os gestos falaram muito mais que as palavras: um simples báculo de madeira, um altar com os restos duma embarcação, o cálice de madeira, a casula roxa para a missa penitencial pela insensibilidade frente aos sofrimentos destes pobres e desgraçados imigrantes que arriscam suas vidas para ver um novo e diferente sol, o que não acontece para muitos deles, sobretudo os muitos que constantemente sucumbem aos naufrágios. E as palavras, cheias de afecto, convicção e proximidade, de modo tal que os imigrantes perceberam que, não obstante serem tratados como refugos, lixo humano, restos e vítimas do capitalismo, havia alguém no mundo que se preocupa com eles, que chora por eles e com eles, que se compadece de seus sofrimentos.

Enviado pelo internauta:Adriano Sumbavela

Papa sorridente.png

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