ENTREVISTA AO SR. MAKUTA NKONDO

 

Augusto Pedro Makuta Nkondo, mais conhecido apenas por Makuta Nkondo, nasceu na aldeia Yenga, comuna de Kinsimba, Província do Zaire, Angola, há 62 anos. Cresceu em Matadi, província do Baixo Congo, República Democrática do Congo (RDC).
É licenciado em Biologia e é Jornalista por opção, sendo integrante da 1.ª geração de jornalistas da Angola Independente, mesmo não tendo estudado sobre o Jornalismo. 
Estudou a sociologia africana, o que faz com que seja confundido como sociólogo, e também, já escreveu sobre culinária em língua kikongo.
É educado segundo a tradição kikongo por parte do seu avó materno, Nzau a Ntaya, fazendo dele um tradicionalista bantu. É católico, casado e tem 7 filhos. Prefere um bom funge com carne às refeições na companhia de água. Detesta a desonestidade e defende a frontalidade. Também é um grande adepto do Progresso do Sambizanga.

 

SJ: Qual é o significado do nome “Makuta Nkondo”?
MN: “Makuta” é o substantivo do verbo “Kuta”, que significa “abraçar”, “unir”. Nkondo é “imbundeiro”. São dois nomes diferentes, e não é um nome composto, e quer dizer um unificador, um conciliador.

SJ: Fale-nos um pouco sobre o seu percurso profissional.
MN: O meu percurso é o seguinte: estudei o ensino primário nas escolas católicas, e a Universidade fiz em Kinshasa onde estudei a biologia. Sou biólogo. Nunca fiz curso de jornalismo, mas comecei realmente a praticá-lo aqui em Angola, nos anos 78-79. Faço parte da 1.ª geração dos jornalistas da Angola Independente, com os colegas que andam na Angop.
Como biólogo, fui convidado a integrar a equipa que foi reabilitar o laboratório das pescas no Namibe, o que trata da biologia, da oceanografia,  da física e da química. Era responsável pela pesca de superfície, pesca pelágica. Fui correspondente permanente em Angola da Agência France Press. Neste preciso momento colaboro no Jornal Angolense. Sou assessor do Samacuva (presidente da UNITA), sem ser do partido, porque com a idade que tenho, não me interessa mais. Já fui pioneiro da UPA onde cresci, numa base militar operacional, no Congo Democrático. Quase que não faço o meu trabalho de biólogo. Actualmente, também faço analíses, comentários políticos.

SJ: Como é que consegue conciliar a sua profissão com outros projectos?
MN: Antes, importa citar que tive uma educação profunda kikongo. Mas com mais velhos escolhidos, que me ensinavam como se faz tudo. Neste sentido, ás vezes tenho me questionado: sou académico ou  sou tradicionalista? É sabido que a maioria das pessoas não fazem aquilo que estudaram na Universidade.  E a título de exemplo temos o saudoso Dr. Agostinho Neto, como grande político no mundo, mas não fez política na Universidade. Era médico. Por isso, o que se faz na universidade é apenas uma abertura ao universo. E agora, exercitar depende do dom, depende da inclinação da pessoa. A minha inclinação é a cultura, a nossa cultura bantu, principalmente. Mas consigo sempre conciliar. Sou homem de cultura, quando estou a falar da cultura, sou político quando estou a falar da política, sou biólogo quando estou a falar da biologia.
 
SJ: Qual é a avaliação que faz sobre o conjunto dos trabalhos que vem desempenhando e quais as perspectivas para o aperfeiçoamento dos mesmos uma vez que estes têm contribuído até certa medida na vida social?
MN: Em termos de biologia lamento bastante, porque em África, principalmente em Angola, não se valoriza a ciência. A biologia é ciência, ciência exacta e ciência da vida. Não há mais ou menos. Aqui não há respeito pela vida e é um problema sério. A única ciência que tenta, mais ou menos, respirar é a informática que é uma  engenheria e é preciso entrar em profundidade. Quanto ao Jornalismo, posso dizer que não há liberdade de imprensa e é outro problema sério. As rádios Viana, Cazenga, não são rádios comunitárias, são um prolongamento da Rádio Nacional de Angola. Uma rádio comunitária entende-se como a da população. Só temos um jornal diário e alguns jornais ou revistas semanários. Mas um grande problema que encaram é o de legalização. Quanto à política, não há democracia. Por isso, decidi que com a idade que tenho, não pertencer à um partido político qualquer, não fazer política, mesmo estando na lista de candidatos a deputados da UNITA.
Não me sinto realizado, mas também não lamento. Já não sou eu que devo lutar para ver quem será Makuta Nkondo.

SJ: A cultura é dinâmica e não é estática. O que é que acha da globalização e a possível importação e exportação de alguns hábitos e costumes?
MN: Aqui, podemos assumir como problema principal o complexo de inferioridade. O dinamismo não implica alteração da cultura. A cultura é um padrão essencial e a sua essência não muda, enquanto que a globalização significa reduzir tudo numa aldeia global, num pequeno universo. Mas as coisas não devem ser de sentido único. Cada um é aquilo que é! Não se pode considerar, por exemplo, as mumuilas, os mukubais como atrasados ou não civilizados, quando a civilização é a cultura de um indivíduo, é a maneira como um povo se comporta!

SJ: Como alguém que defende rigidamente a cultura bantu, sobretudo a dos “bakongos”, quais são os ecos que tem recebido das pessoas que o ouvem, de uma forma geral, e particularmente, o que é que tem ouvido dos bakongos que não são da província do Zaire?
MN: A tradição que defendo não é só quicongo, como alguns querem fazer entender. A tradição depende da etnia, da tribu, do clã, mas temos uma ossatura, uma coluna vertebral comum, um padrão comum. Todos somos bantu. Temos todos o mesmo padrão, o mesmo tipo de cultura. É certo que as pessoas pensam que sou rígido. Sendo a cultura dinâmica e não estática, essas mudanças que existem são acessórios. Muitos tentam questionar, outros discutem por ignorância e outros por assimilação.
Em Angola temos duas culturas: a angolanidade por um lado e a africanidade: a 1.ª é a cultura dos assimilados, a cultura luso-tropicalista, a cultura colonial portuguesa. É a aculturação. Enquanto que cultura africana, a africanidade é a cultura bantu, que é aquela nossa cultura genuína, as nossas tradições.

SJ: O que tem a dizer sobre a perca e o resgate dos valores?
MN: Devemos estabelecer quais são os valores a se  resgatar, considerando que existem os valores morais, cívicos, políticos, religiosos, tradicionais... Esses valores foram sabotados por nós próprios, pelo nosso regime e perderam-se. Muitos apontam como causa a guerra, mas não concordo, uma vez que andei no Congo Democrático quando havia guerras violentas, mas os valores foram respeitados; no Iraque e no Afeganistão as guerras continuam, mas os islamistas mantêm as suas culturas. O resgate desses valores não anda bem, porque estamos a misturar tudo e a fazer um reaproveitamento político, quando todo o trabalho depende de cada pessoa. Nesta campanha deviam estar envolvidos as igrejas, a sociedade civil, os meios de comunicação social, principalmente os audiovisuais.

SJ: Os jovens estão cada vez mais distantes das línguas nacionais. Como resgatarmos este elemento que também é indispensável na nossa cultura?
MN: Uma língua que não é falada pelas crianças, tende a desaparecer. É mais fácil assimilar a língua  falada em casa, só estudar nas escolas não adianta. Os pais têm que falar a língua nacional para os filhos seguirem... pois, tudo depende da sua prática.

SJ: O que pensa do ensino em Angola?
MN: O ensino em Angola está mal. Os dirigentes não se esforçam até ao ponto de ser revelado no relatório da UNESCO  que nenhuma Universidade de Angola vigora entre as 10 melhores em África. Enquanto estes e os seus próximos não deixarem de frequentar as escolas privadas, não hão-de preocupar-se com o resto.  O mesmo acontece com a saúde. Enquanto os filhos dos governantes não serem tratados por angolanos, isso não vai melhorar e ninguém vem cá em tratamento.
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SJ: Que conselho deixa para a sociedade em geral, como defensor dos valores culturais?
MN: Um povo sem cultura é um povo sem dignidade. Pois, toda a cultura é fundamentalista, não muda e deve ser respeitada e não confundida com o racismo. Somos o que somos e devemos ter orgulho. O valor da pessoa mede-se pela cultura, que se traduz 1.º nos nossos nomes e depois nas línguas, tradições.


Luanda, 15 de Novembro de 2010

Por: Marisa Pereira

Fonte: Revista Smash Juvenil - revistasmash2@yahoo.com.br


Sr. Makuta Nkondo